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O HD morreu com a prova dentro: recuperação de dados com valor pericial

Recuperação de Dados · 2 de julho de 2026 · 9 min de leitura

Disco rígido aberto em câmara limpa para recuperação forense

O acidente foi grave: uma farpa metálica lançada por um equipamento industrial atingiu o olho do operador, que perdeu a visão. Na ação trabalhista, a disputa se resumia a uma pergunta: ele usava os óculos de proteção? A empresa fornecia os EPIs e treinava o uso; os óculos do colaborador, recolhidos após o acidente, não tinham marca nem perfuração, o que sugeria que não estavam no rosto dele no momento do impacto. Mas, no susto das primeiras horas, com todas as atenções voltadas ao socorro, ninguém preservou a cena, e dias depois nem se sabia onde os óculos estavam. Restavam as câmeras.

As imagens do circuito principal mostravam o operador longe demais para distinguir o EPI. Havia, porém, um segundo DVR, com três câmeras muito mais próximas do equipamento, e um problema: o aparelho estava quebrado fazia tempo. Dentro dele, um disco de 10 TB emitia o estalo rítmico que os laboratórios conhecem como "click of death", o clique da morte. O disco foi coletado na própria empresa, com o procedimento fotografado e a cadeia de custódia registrada desde o primeiro toque, e aberto na câmara limpa do laboratório, dentro da cabine de fluxo laminar. O diagnóstico: a cabeça de leitura havia tocado a superfície de um dos pratos, danificando uma das faces.

A cabeça de leitura foi substituída por uma unidade doadora compatível, e a cabeça correspondente à face danificada foi desativada: insistir nela poderia comprometer o restante. Todas as demais faces foram lidas e o conteúdo, indexado em servidor de recuperação. Como o DVR grava em blocos de poucos minutos por câmera, a maior parte dos vídeos de todas as câmeras foi recuperada; perderam-se apenas os blocos que residiam na face danificada, e sobre eles o laudo declara o único fato honesto possível: não há como saber o que continham.

Três perícias, um veredito

A recuperação entregou o material à segunda etapa, a forense computacional, que preservou e organizou as evidências; e esta alimentou a terceira, a perícia em imagens. Câmeras distantes do local do acidente mostravam o colaborador circulando pela fábrica com os óculos de proteção apoiados na cabeça e sem o capacete. E uma das câmeras recuperadas, próxima ao equipamento, registrou o momento decisivo: os óculos estavam na testa, não nos olhos, quando o cavaco partiu. Não houve obstrução porque não havia o que obstruir. A situação é lamentável, um profissional perdeu a visão, mas o papel da perícia é demonstrar o fato: o EPI foi fornecido e treinado, e não foi utilizado como devia. A responsabilidade pelo acidente não era da empresa.

"A perícia é obrigação de meio, não de resultado. O que existe dentro de uma mídia danificada, ninguém sabe antes de abrir, trocar o componente e ler o que restou. Quem promete resultado antes disso está vendendo outra coisa."

Quando a recuperação barata destrói tudo

O contraponto veio em outro caso. Uma entidade de classe mantinha um storage com dez discos, sem manutenção havia anos, e só percebeu o problema quando o conjunto parou de vez. A área de TI pesquisou na internet, abriu cotação e contratou a proposta mais barata. Sessenta dias depois, a empresa devolveu os discos com o veredito: irrecuperável.

O exame do laboratório contou outra história. Os discos que haviam falhado tinham defeitos elétricos e eletrônicos nas placas controladoras, corrigíveis em horas: alguns pediam substituição de componentes, um exigia o transplante da placa lógica inteira. Já os discos que estavam saudáveis haviam sido destruídos, não pela falha, mas pelo fornecedor: conectados a uma estação de trabalho comum com Windows, foram inicializados quando o sistema, sem reconhecer as partições do storage, ofereceu a formatação, e alguém aceitou. Áreas inteiras foram sobrescritas. Em um dos discos, formatado como NTFS, a lixeira criada pelo sistema operacional registrava o nome de usuário da estação do próprio fornecedor: a assinatura involuntária de quem causou a perda. O array inteiro se foi, num serviço que, nas mãos certas, teria durado algumas horas.

Recuperar dado não é recuperar prova

Os dois casos ensinam pela diferença. No primeiro, a mídia chegou lacrada ao laboratório com custódia documentada desde a coleta na empresa, e o que saiu dela decidiu um processo. No segundo, a mídia passou por mãos sem método, e o que se perdeu não foi só o dado: foi a possibilidade de qualquer prova. Recuperação com valor pericial exige o que a recuperação comercial ignora: registro de cada intervenção, imagem forense do que restou da mídia, hash que autentica o conjunto, laudo que declara o que se recuperou, o que se perdeu e por quê.

O limite honesto e a segunda busca

Quando um dado se revela irrecuperável, o cliente é informado imediatamente, sem rodeios. E ainda há uma segunda busca possível: o data carving, a varredura da mídia atrás de cópias do arquivo em outras áreas do disco, versões temporárias, fragmentos remontáveis. Às vezes encontra; às vezes não. O que nunca existe é garantia prévia: a extensão do recuperável só se conhece depois da troca do componente danificado e da leitura real do que sobreviveu.

Antes de entregar sua mídia a alguém

  • Verifique quem são os profissionais e há quanto tempo atuam em recuperação de dados;
  • Pergunte pela formação real, além do rótulo de "técnico": o mercado está cheio de atuação empírica formada por cursos a distância;
  • Exija câmara limpa para abertura de mídias e método documentado de trabalho;
  • Se o dado puder virar prova, exija cadeia de custódia desde a coleta;
  • Desconfie de promessa de resultado: recuperação séria é obrigação de meio.

Um disco que estala não é o fim da história; às vezes é o começo dela. Entre o HD que morreu e a prova que decide o processo existe um caminho estreito, que passa pela câmara limpa, pela peça doadora, pela custódia e pela honestidade sobre o que a face perdida levou consigo. O atalho barato, como a entidade de classe aprendeu, costuma custar tudo.

VALLIM

Adriano Vallim

Perito especialista em crimes digitais, com atuação nas áreas da forense computacional, grafotécnica e documentoscopia, e fonética forense, acumula uma combinação de credenciais técnicas, acadêmicas e institucionais que o posiciona como uma das referências mais completas da área no Brasil. Conheça a trajetória →

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O livro Forense Computacional e Criptografia (Editora SENAC), a cartilha da OAB/SP sobre uso seguro das redes sociais e os materiais técnicos para download reúnem, em formato mais longo, o que estes artigos abordam.

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